Os mandamentos segundo Simon


Juremir Machado da Silva
Correio do Povo - Porto Alegre 13/11/2011

Pedro Simon tem história. Está no Senado há tanto tempo que já pode ditar-lhe mandamentos. Não diz PMDB. Fala MDB. É um dos históricos da oposição legal à ditadura. Faz discursos bombásticos, indignados, furiosos, verdadeiras catilinárias (ver no Google). Quase todo ano Pedro Simon manda imprimir na gráfica do Senado os seus discursos sob a forma de livro para lançar na Praça da Alfândega. Desta vez, o livro é livro mesmo, mais pessoal, com mais foco, menos peça de oratória. Tem um ótimo texto sobre "fé e política". E tem os dez mandamentos do político, segundo o "apóstolo" Pedro Simon. Quer dizer, um "decálogo indispensável para o exercício da atividade política" com a marca do senador Simon.

Será que algum político escapa do pecado? Primeiro mandamento: "Amar e respeitar o próximo como a si mesmo". A marca do político é o narcisismo. Segundo: "Não usar o dinheiro público em vão". Ai, ai. Os políticos usam o dinheiro público em vãos, pontes de mentirinha, buracos negros, bolsos, cuecas, pastas, malas e outros espaços privados. Terceiro: "Colocar o bem comum acima de qualquer interesse individual". Uau! Parece que José Sarney entende por bem comum o interesse da sua família. Quarto: "Honrar a confiança depositada nas urnas". O Brasil está bem nesse mandamento. Jamais ocorre de um político adotar um programa na campanha e outro depois de eleito. Quinto: "Jamais ser omisso no cumprimento da função pública". Explicação de Simon ao mandamento: "Não furtar-se, jamais, quando se requer uma decisão que atenda às necessidades da população". O problema é esse verbo acompanhado de pronome reflexivo: furtar-se. É mais fácil para boa parte dos políticos usá-lo sem esse "se".

Sexto: "Trabalhar para que a Justiça seja igual para todos, independente de raça, credo e condição social". Sem dúvida, como o país inteiro sabe, Pedro Simon é um homem digno e um político idealista. Por enquanto, homem branco ganha mais do que mulher branca, que ganha mais do que homem negro, que ganha mais do que mulher negra. Sétimo: "Não furtar". Aí o problema é aquele reflexivo. Eles pensam, pensam e não conseguem se furtar a furtar. Como diz o mandamento, isto é, o ditado, a ocasião faz o político. Oitavo: "Empenhar todos os esforços para que a fome seja erradicada do planeta". Bela meta. O problema é que, volta e meia, os recursos destinados a combatê-la são desviados por gente de barriga cheia. É o pecado da gula. Tem figurão sentado em cima do bolo, que já cresceu bastante, tentando impedir que tenha fatia para todos.

Nono mandamento: "Desenvolver os melhores valores e transformar-se em referência positiva para as gerações futuras". Valores, atualmente, na política têm atendido pelo nomes de cifras e sido contabilizados nos caixas 2 de cada partido. Décimo mandamento: "Comprometer-se, fielmente, com a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade". Aí um político matreiro vem e filosofa: "Mas o que é a verdade?". Outro, flagrado pela mídia, declara: "Eu não sabia de nada". A intenção do senador Simon é boa. O problema é que Brasília está cheia delas.

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