Congresso vazio na homenagem a San Tiago Dantas


Simon preside a sessão acompanhado apenas de Cristovam, Crivela e Paes Landim

DISCURSO DO SENADOR PEDRO SIMON

O SR. PEDRO SIMON (Bloco/PMDB – RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Sr. Senador Cristovam Buarque, Presidente da sessão, Sr. Deputado Paes Landim, signatário desta sessão; Diretor do Instituto de Pesquisas e Relações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores, Sr. Embaixador Carlos Henrique Cardim; meu amigo, Vice-Reitor Acadêmico da Universidade do Legislativo Brasileiro (Unilegis), Sr. Ministro Carlos Mathias, primeiro, perdoem-me, mas eu acho que estamos vivendo um momento surrealista: nós, aqui, três Senadores, um Deputado, os ilustres convidados, e esta é uma sessão de centenário de uma das pessoas mais extraordinárias da história desse País. (Nota da Assessoria: o senador Marcelo Crivela, (PRB-RJ) chegou atrasado, mas a tempo de participar da sessão).

Com todo o respeito à direção do Congresso Nacional, a sessão nem sequer está sendo transmitida pela televisão. A televisão está transmitindo uma reunião de uma comissão de não sei o quê. Eu não consigo entender.

Sinceramente, eu não consigo entender. Será que a figura de San Tiago Dantas, de tanta polêmica, talvez ainda tenha aqui alguém que votou contra ele para ser Primeiro-Ministro? Eu não sei. Não sei. E talvez aí, por isso a sessão não seja tão solene, porque essa pessoa hoje é importante no Congresso Nacional. Não sei. Com todo o respeito, esta era uma sessão muito importante.

Roberto Campos: “San Tiago é a figura mais genial de nossa geração”

O centenário de uma pessoa cujo adversário, na hora em que ele saiu, o Ministro mais importante da ditadura, Roberto Campos, dizia: “San Tiago é a figura mais extraordinária, mais genial de toda a nossa geração, ninguém se compara a San Tiago Dantas”. E ele, Ministro da ditadura, foi fazer a sua homenagem no túmulo de Santiago, para dizer pessoalmente o que ele pensava e o que ele sentia. Naquela hora dura, triste, dolorosa, da violência e do radicalismo, o Sr. Roberto Campos teve a personalidade de ir e dizer o que pensava daquele que morreu derrotado, como todos nós, em 64.

Eu era um guri, Presidente do Centro Acadêmico da Universidade, em Porto Alegre, quando levei Roberto Campos para fazer uma palestra. Impressionante como o mundo intelectual, o mundo jurídico aplaudiu, e foi uma coisa assim meio boquiaberta, ninguém tinha ouvido falar, ao vivo, Roberto Campos, e ele mostrou o plano dele, a história dele, o pensamento dele com relação ao Brasil.

Olhem, como assessor de Getúlio Vargas, Roberto Campos teve papel direto na Petrobras. Estava ali, ele, que participou da coordenação. Inclusive, dizem que foi dele a ideia de a Petrobras não vir para cá, para o Congresso, com o monopólio, e deixar para um Deputado da União Democrática Nacional apresentar a emenda. Foi deliberado, porque seria mais facial passar, mais fácil ser aprovada, do que se fosse uma iniciativa que viesse do Governo do Presidente Vargas.

San Tiago foi o grande responsável pela criação da Rede Ferroviária Nacional. Ele fez um amplo e profundo plano e criou a Rede Ferroviária Nacional. Foi uma pena, nota dez ao Juscelino, sobretudo; mas ele não precisava ter esquecido as ferrovias e ter ficado só nas rodovias.

Política externa: “San Tiago teve a coragem de ser independente”

San Tiago Dantas no Ministério de João Goulart, no parlamentarismo, primeiro no Ministério das Relações Exteriores, marcou época e marcou posição. Hoje, o mundo inteiro fala em autodeterminação dos povos, em política independente. Naquela época, eram Estados Unidos e Rússia, ou do lado de cá ou do lado de lá. E Santiago Dantas teve a coragem de falar numa posição de independência. San Tiago Dantas teve a coragem de fazer a reaproximação do Brasil com a Rússia, o reatamento das relações.

San Tiago Dantas em Punta del Este praticamente foi a voz que teve a coragem de dizer, não porque ele defendesse que Cuba virasse comunista, mas porque ele achava que em vez de empurrar Cuba para o lado de lá, nós tínhamos de trazê-la para o lado de cá.

E votou contra ao boicote financeiro que dura até hoje. Uma maldade, uma crueldade contra uma nação-irmã. Em reunião na Europa, ele proclamou que o Brasil era uma pessoa equidistante, longe dos conflitos, que defendia a autodeterminação dos povos.

“Aplaudido de pé depois do discurso, foi rejeitado na votação”

Tancredo, Primeiro-Ministro, estava fazendo um bom governo. Foi quando Lacerda, Juscelino, PSD e companhia boicotaram-no. E, em um regime parlamentarista, e a decência de um regime parlamentarista é que os ministros sejam parlamentares, Tancredo teve de renunciar ao cargo de Primeiro-Ministro para ser candidato a Deputado. É uma piada! Para ser candidato a Deputado, ele teve de renunciar. E é indicado San Tiago Dantas.

Olhem, eu assisti, guri, eu assisti, e acho que foi a sessão mais espetacular do Congresso Nacional, San Tiago Dantas defendendo seu plano de governo para Primeiro-Ministro, mas de uma coragem, de uma franqueza, de uma lealdade, de uma profundidade! Foi aplaudido de pé por minutos e minutos; aliás, aclamado permanentemente! Uma peça fantástica!

Na política econômica, mostrava que o Brasil não podia continuar com elite de um lado e povo do outro e que, se não houvesse providência no sentido de fazer a aproximação, isso teria consequências funestas. Um plano de política monetária de identificação, de independência, de luta, principalmente nos afastando da obrigatoriedade de seguir o americano.

Um dos fenômenos mais constrangedores da história deste País aconteceu nesta Casa: aclamado de pé, ovacionado, não foi aprovado.

“Presidenciáveis JK e Lacerda atuaram contra San Tiago”

Por que não foi aprovado? A tese que circulou é de que ele era muito de esquerda, era muita antipatia do americano para o lado dele. A tese mais profunda é que Juscelino, o PSD e companhia se uniram porque o trabalho dele, a história dele, a proposta dele, os nomes dele eram tão profundos que, se ele fosse primeiro-ministro, consolidaria o parlamentarismo, e eles não queriam o parlamentarismo. Juscelino não queria porque era candidato, Carlos Lacerda não queria porque era candidato, e se uniram para boicotá-lo. Parece mentira, mas isso aconteceu. E ele continuou. Caído o parlamentarismo, Jango faz o seu ministério.

Eu gostaria de me dirigir à querida Presidente da República, que pode não ter sido responsável por esse ministério que está aí e que não se sabe de quem é, mas é responsável pelo que veio. Olhe os nomes: Abelardo Jurema, Afonso Arinos de Melo Franco, Almino Afonso, André Franco Montoro, Armando de Queiroz Monteiro Filho, Carvalho Pinto, Celso Furtado – Celso Furtado e o nosso querido homenageado, San Tiago, organizaram o Plano Trienal, espetacular, que era qualquer coisa de emocionante em termos do futuro desse País –, Darcy Ribeiro, Eliezer Batista, Evandro Lins e Silva, Brochado da Rocha, Gabriel Passos, Hélio de Almeida, Hélio Pereira Bicudo, Carvalho Pinto, Hermes Lima, João Mangabeira, José Ermírio de Moraes, Miguel Calmon, Oswaldo Lima Filho, Paulo de Tarso Santos, Roberto Tavares de Lima, Francisco Clementino de San Tiago Dantas; Ulysses Guimarães; Walter Moreira Salles; Waldir Pires, Consultor-Geral da República; Anísio Teixeira, Reitor da Universidade de Brasília; Paulo Freire, Diretor do Plano Nacional de Alfabetização.

“Eram homens sobre os quais nunca pairou suspeitas de corrupção”

Minha querida Presidente, esse foi o Ministério. Derrubaram o Jango, cassaram o Jango! A Igreja, em uma página triste, andou pelas ruas falando “Deus, Pátria e família”! A imprensa nacional, aí sim, meu amigo Lula, minha querida Presidente, em uma campanha cretina, imoral, inventando e caluniando em relação ao Governo. Mas, mesmo assim, minha querida Presidente, nenhum desses nomes apareceu no jornal em qualquer notícia de corrupção! Nenhum desses nomes, naquela época maldita, em que a Imprensa estava manipulada, o empresariado, estava todo mundo em uma luta cruel. Inventaram sobre o Jango, sim, dizendo que ele era o maior proprietário de terras do mundo! Que ele comprava uma fazenda por mês.

Eu, Deputado Estadual, no Rio Grande do Sul, junto com o seu primo-irmão Deputado Marcírio Goulart Loureiro e ele, Jango, fomos a Montevidéu e lá, em um cartório, entregamos uma procuração em causa própria para o Presidente da Time-Life, que havia publicado, para que ele pudesse comprar por um dólar qualquer fazenda que o Jango tivesse adquirido como Vice-Presidente e como Presidente da República.

“Resposta de Jango não saiu em nenhum jornal na época”

Isso não saiu em nenhum jornal. O Estadão, que publicou páginas e páginas não deu uma vírgula. Ninguém publicou! Mas, mesmo assim, nenhum Senador, nenhum Ministro foi cassado por corrupção – e foram cassados muitos. Mas nenhum por corrupção, nenhum por nenhuma vírgula com relação à dignidade e seriedade.

Minha querida Presidente, V. Exª vai escolher agora o seu Ministério. Faça isso, escolha. Não precisa ser intelectuais, como aqui. Pode até ser gente simples, mas não precisa ser a CUT, com a caixa de dinheiro da Petrobrás, os fundos de pensão; não precisa ser a Força Sindical, com a caixa de pensão do Banco do Brasil.

Esse foi o Ministério que San Tiago integrou e onde elaborou o grande projeto do Plano Trienal, que empolgou e que tinha condições de ser levado adiante.

Olhem, meus irmãos. Quem conhece a biografia de San Tiago fica impressionado, em primeiro lugar, pela sua cultura geral – jurídica, política, econômica.

No Ministério da Fazenda, ele foi tão importante quanto no Ministério das Relações Exteriores, apresentando um projeto e uma proposta que visava realmente às transformações e em que defendia, com conteúdo, as chamadas reformas de base, sem os exageros... Aliás, ele dizia isso: nós temos, no Brasil, duas Esquerdas: uma Esquerda progressista, positiva, que queremos realmente fazer as transformações; e uma Esquerda negativa, boicotando, que não quer nada, quer o boicote.

“Parte da esquerda boicotou”

E essa Esquerda o boicotou sempre, ficou contra ele sempre. Nas vésperas, quando a ditadura estava sendo imposta e ele apresentou um projeto de salvação, de união de todo o Brasil em torno de salvar a democracia, essa

Esquerda radical não aceitou. E o PSD não aceitou. No final, quando o movimento já estava na rua, é que a Esquerda radical o aceitou, do seu jeito. O discurso na Central do Brasil até hoje não entendo o porquê. E um presidente da República fazer reunião para se abraçar com um sargento em vez de se abraçar com um general de quatro estrelas? Mas San Tiago manteve sua posição. Ali, como disse o Cristovam, só não foi cassado porque estava morrendo de câncer – em 3 de setembro, ele morreria.

Mas uma figura que... Vou ser sincero. Alguém lembrou San Tiago e Rui Barbosa, dizendo que San Tiago e Rui Barbosa eram dois gênios, que o Congresso apoiava e as lideranças endeusavam.

Mas, na verdade, eles tinham medo de entregar o governo para o Rui Barbosa e o governo para o Tancredo. Preferiram o Hermes da Fonseca, um general, ali e tal, do que o Rui, que não se sabia o que viria. E derrotaram o San Tiago Dantas, porque sabiam que faria um grande governo.

“O Congresso está com vergonha de fazer esta homenagem”

Esse é o homem que estamos homenageando. Uma reunião como essa, até parece que teria sido uma homenagem no meio da ditadura, ali por outubro de 64, ou em 65, no primeiro aniversário. Mas no centenário, nessa abertura democrática, o Congresso Nacional fazer uma reunião dessa singeleza, nesta segunda- feira, até parece que estamos fazendo uma reunião sigilosa, com medo de alguém. Parece que estamos correndo perigo e que alguma coisa vai acontecer. Parece que o Senado e a Câmara, o Congresso, estão com vergonha de fazer esta homenagem.

Eu faço questão de dizer: eu estive aqui. Vocês estiveram aqui, nós estivemos aqui. Quem não está aqui que se explique depois.

Mas hoje é um grande dia. O Brasil, lamentavelmente, tem uma memória muito fraca. Depois que eu vi uma pesquisa feita na universidade de vocês, a Universidade de Brasília, que indicava que um percentual, que prefiro não dizer de quanto, não sabia responder quem tinha sido o Deputado Ulysses Guimarães, eu entendo que, realmente, a memória política é muito fraca neste País. Mas o importante é que San Tiago Dantas foi um grande homem, no sentido amplo da palavra: digno, correto, decente, firme, coerente, defendendo ideias, à época, consideradas impossíveis, mas defendendo. E, hoje, tudo aquilo que ele dizia é considerado unanimidade.

Um abraço, meu irmão. Teu nome estará firmemente ligado a nossa história, independente daqueles que hoje estão aí e, por um ato muito triste de falta de grandeza, não estão aqui te homenageando como tu mereces.
Salve San Tiago Dantas! Muito obrigado. (Palmas.)

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