Da esquerda para direita: Jair, Ana Rita, Cícero Lucena, Maria Cristina, reverendo Sérgio, d. Tomás e Paulo César Fonteles de Lima Filho.Leia, na sequência, a íntegra do discurso do senador Pedro Simon
Brasília - Agência Senado - Seis brasileiros foram distinguidos pelo Senado com a comenda Dom Helder Câmara, em reconhecimento pela contribuição que deram à luta em prol dos direitos humanos no Brasil. Instituída no ano passado, por iniciativa do ex-senador José Nery, a condecoração foi entregue em solenidade realizada ao meio dia desta terça-feira (13) no Plenário da Casa.
.Os agraciados foram escolhidos em meio a 35 indicações enviadas de todo o país. São eles: cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo emérito do Rio de Janeiro, representado pelo reverendo Sérgio Costa Couto; Jair Krischke, fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH); Dom Marcelo Pinto Carvalheira, arcebispo emérito da Paraíba; Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás; o ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal; e Paulo César Fonteles de Lima (in memoriam).
Estiverem presentes à solenidade apenas o bispo Dom Tomás Balduíno, que recebeu a comenda das mãos do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e da deputada Luiza Erundina (PSB-SP); e Jair Krischke, que a recebeu dos três senadores gaúchos: Ana Amélia (PP), Pedro Simon (PMDB) e Paulo Paim (PT). Ayres Brito mandou uma mensagem pedindo para receber a comenda noutra data.
O monsenhor Sergio Costa Couto representou Dom Eugenio Salles e recebeu a medalha das mãos da senadora Ana Rita (PT-ES). Maria Cristina Carvalheira do Nascimento representou o irmão Dom Marcelo Pinto Carvalheira e recebeu a comenda das mãos do senador Cícero Lucena (PSDB-PB). Paulo Fonteles de Lima Filho representou o pai, homenageado postumamente e recebeu a medalha das mãos da senadora Ana Rita.
Presidente do Conselho da Comenda de Direitos Humanos, Ana Rita fez um discurso dizendo-se emocionada por celebrar a memória de Dom Helder Câmara mediante a concessão dessa honraria a indivíduos que, como ele, dedicaram sua vida a defender uma sociedade mais humanista.
- Cada um a seu modo, com as peculiaridades que caracterizam a vida de cada pessoa, todos fizeram por merecer a homenagem que ora lhes prestamos. Todos eles construíram uma história da qual podem se orgulhar. São indivíduos que souberam, como poucos, vivenciar a excelsa experiência da contínua doação, da entrega desinteressada ao próximo, como autênticos instrumentos da justiça e mensageiros da paz - disse a senadora.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez um pronunciamento louvando especialmente o gaúcho Jair Krischke, que dedicou sua vida à proteção de cidadãos perseguidos por regimes ditatoriais na América do Sul. Simon elogiou a simplicidade desse brasileiro que, em sua opinião, foi o maior exemplo de pureza, grandeza, humildade e singeleza na luta e na resistência.
Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que os homenageados com essa comenda dão não só o exemplo, mas oferecem luzes ao país. Ele disse estar em Plenário não como um senador, mas como um jovem que se beneficiou dessas luzes e, assim, encontrou ideais a seguir na vida.
A senadora Marinor Brito (PSOL-PA) se disse honrada por poder partilhar, com esses agraciados, um momento que é simbólico na revelação de que "o Senado não está aqui apenas para valorizar os interesses das elites, mas para atuar em favor dos que lutam contra violações dos direitos humanos".
Também emocionada, a senadora Ana Amélia (PP-RS) disse que a razão da construção de uma democracia é garantir a todos os cidadãos os direitos humanos. Ela observou ainda que a luta por esses direitos sofre constantes ameaças e necessita de constante vigilância.
Na presidência dos trabalhos, o senador Cícero Lucena (PSDB-PB) lembrou que, quando assumiu a prefeitura de João Pessoa, em 1997, foi à casa de Dom Marcelo Carvalheira, ali ouvindo um testemunho que demonstrava sua grandeza humanitária.
- Ele me levou para um terraço no fundo da casa dele e me disse: "Veja como é a vida. Enquanto meu olho esquerdo sorri, com a alegria do criador, ao ver o pôr do sol do rio Paraíba, meu olho direito chora porque avista um lixão onde cerca de 300 pessoas sobrevivem de forma desumana". Esse é o humanista dom Marcelo - comentou Cícero Lucena.
Em agradecimento pela comenda, falaram Jair Krischke, Dom Tomás Balduíno, Paulo Fonteles de Lima Filho e o monsenhor Sérgio Costa Couto. Jair apontou o Estado brasileiro, compreendendo as esferas federal, estadual e municipal como "violadores dos direitos sociais como direito à saúde e educação". Paulo, que recebeu a comenda em nome do pai, morto em 1987 por sua atuação em defesa dos trabalhadores rurais, denunciou "a impunidade que paira sobre os dois mil assassinatos de camponeses no Pará, na luta pela reforma agrária, sendo que desse total menos de 3% foram a julgamento".
Assessoria de Imprensa com Agência Senado
Discurso do senador Pedro Simon em homenagem a Jair Krischke
O SR. PEDRO SIMON (Bloco/PMDB – RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Exmº Sr. Presidente dos trabalhos, Senador Cícero Lucena; querida Presidenta da Comissão Especial; senhores agraciados; e distintas autoridades, embora a singeleza desta reunião, eu acho que é um momento de uma afirmativa muito importante do Congresso Nacional.
Em primeiro lugar, como salientou a ilustre Presidenta, Senadora Anita Rita, o nome do prêmio Dom Helder Câmara, como disse muito bem V. Exª, o nome já diz tudo. Ao escolher a figura de Dom Helder Câmara para nós destacarmos as pessoas que se apresentaram na luta pela defesa dos direitos humanos, nós estamos dizendo tudo.
Eu já disse várias vezes desta tribuna que a figura de Dom Helder foi uma figura que mais me impressionou na minha vida. Eu era jovem, dirigente da Junta Governativa da UNE, e fomos conversar com Dom Helder
A figura de D. Helder, o magnetismo da fórmula com que ele falava, as palavras que brotavam do fundo da sua alma. Ele nos dando uma lição do que tinha que ser... Acompanhei sua vida o tempo todo.
Não é por nada que a ditadura proibiu o seu nome de sair em jornal, rádio e televisão; não é por nada que ele é que deveria ser o chefe da igreja no Rio de Janeiro e foi transferido para o Recife. O que não o impediu de ele ser a grande figura e a grande liderança que foi no Brasil e no mundo.
A companheira Ana Rita, salientou a importância dos nossos agraciados. D. Eugênio de Araujo Sales, Cardeal do Rio de Janeiro, D. Marcelo Pinto Cavalhera; a figura lendária de D. Tomás Balduino, uma figura épica que o Brasil aprendeu a respeitar, a amar, pela grandeza, pela coragem, pela dignidade de sua ação. Em memória a Paulo César Fonteles de Lima, o Ministro Aires Brito, uma figura emocionante – ah se o Judiciário brasileiro seguisse a rota do Ministro Aires Brito, que tem dado uma lição de civismo, de dignidade, de bravura...
dignidade, de bravura e nós do Rio Grande do Sul apresentamos a figura de Jair Krischke.
Olha, Jair Krischke é mais que do um cidadão, é uma lenda; mais de duas mil, não sei quantas mil pessoas não foram assassinadas pelo trabalho de Jair Krischke
Desde 64, ele se dedica a essa causa, não apenas como Presidente da Comissão de Direitos Humanos, mas já antes, sua figura é emocionante no Cone Sul, Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai.
Primeiro levando os brasileiros do Rio Grande do Sul para o Uruguai, quando lá era uma democracia; depois, atuando nos dois sentidos, de cá para lá e uruguaios, e os brasileiros que estavam lá, exilados, com a ditadura que lá se estabeleceu, para que retornassem ao Brasil e fugissem para algum país da América ou da Europa.
O trabalho de Jair Krischke foi qualquer coisa de fantástico no Rio Grande do Sul. O seu nome é uma bandeira de respeito, de dignidade, de correção. Muitos, inclusive eu, tentamos entrar com seu nome na vida política, podia estar nesta Casa, Senador da República. Nunca aceitou. Nunca aceitou nem cargo político e nem qualquer cargo. Poderia ter um escritório de primeiríssima grandeza com grandes causas, se dedicou aos presos políticos, se dedicou aos perseguidos, se dedicou aos torturados, a sua vida inteira, anos e anos e anos
anos, anos e anos. Começou em 64 e não parou até hoje. Olha, acompanho a sua vida, a modéstia e a singeleza da sua vida. É uma pessoa que a qualquer momento do dia, da noite, a qualquer hora, em qualquer instante, é solicitado por milhares de pessoas e milhares de pessoas que encontraram a salvação e conseguem se manter vidas, conseguindo um caminho, no mundo, que lhes dá condições de sobreviver.
Também na luta da ação pelo restabelecimento da democracia lá estava o Jair. Na luta pela anistia, pelas Diretas Já, na luta contra a tortura, na convocação da Assembléia Nacional Constituinte, na luta contra a censura à imprensa. Ao lado dele, com seu exemplo, posso garantir, ninguém mais do que Jair foi um norte no Rio Grande do Sul que, talvez, tenha sido o
Estado que mais sofreu na ditadura. O Presidente deposto foi João Goulart - o líder da legalidade, Brizola, estava lá ao lado, no Uruguai . As tropas do Exército praticamente cercaram a fronteia do Brasil, do Uruguai e da Argentina. O Rio Grande se levantou, nunca se dobrou, teve coragem de resistir sempre. Por um momento, o Congresso foi fechado, todas as assembléias legislativas do Brasil foram fechadas. A Assembléia do Rio Grande do Sul ficou aberta. Fez-se um grande Congresso quando a Oposição era um anarquia e não se sabia o que se queria ou o que não se queria, qual o caminho a ser traçado. Lá no Rio Grande se fez um Congresso de toda a Oposição para escolher a linha
Para escolher a linha. A linha não é da luta armada, é luta democrática, pelas Diretas, pela Constituinte, pela anistia, pelo fim da tortura, pela liberdade da imprensa. Quem mais orientou, quem mais serviu de padrão, quem mais foi o exemplo que atrás dele as pessoas caminharam, foi o Jair.
A figura impávida dele andando, trabalhando, lutando, debatendo. A figura dele enfrentando, arrostando a polícia, o exército, indo de peito aberto, e todos tinham que respeitá-lo, porque o Rio Grande e o Brasil olhavam para a figura dele. Era o grande exemplo e o grande mote.
Eu tenho a convicção absoluta de que o exemplo do Jair no Rio Grande do Sul, naquela região, lá no Uruguai, porque ele fez o mesmo o que fez no Rio Grande do Sul, fez na luta pela democracia no Uruguai. Lá na Argentina, com as Mães da Praça de Maio. Lá no Chile. A luta contra o projeto Condor, onde a luta contra a ditadura do Brasil, da Argentina, do Uruguai, do Chile se uniu sob o comando americano para impor a ditadura. O seu trabalho, o seu esforço e a sua resistência.
Olha, meu amigo Jair, acho que é a primeira vez que tenho a chance de dizer isso para ti frente a frente: eu tenho uma admiração e um respeito por ti que tu não imaginas. E digo mais, Jair, o Brasil e de modo especial o Rio Grande do Sul, você é uma figura que vai ficar na nossa história, nessa tua simplicidade, nessa tua modéstia, nessa tua negativa de receber cargos, posições, nessa tua vida onde tu sacrificaste tudo, podia ser um grande advogado, podia crescer, podia avançar e, no entanto, não fez nada a não ser trabalhar pela tua causa. Você é um grande nome.
O Congresso faz aqui uma justiça muito grande.
Vejo que estás bem acompanhado
Vejo que estais bem acompanhado com as figuras que estão ao teu lado, mas para nós do Rio Grande do Sul que, ao lado da luta do Brasil, temos algumas lutas a mais. O Rio Grande do Sul é Brasil porque quis ser porque era para ser Espanha, era para ser América espanhola, mas a pátria do cavalo, nós do Rio Grande, definimos a fronteira e o Brasil.
Tivemos muitas lutas inclusive com o Brasil com a Revolução de 30, com a Revolução farroupilha. Temos princípios arraigados, temos uma tradição de fé, de amor à terra, à pátria que é difícil encontrar alguém mais do que nós. Igual, muitos, mas não mais. E é esse Brasil que olha para o Rio Grande e vê no Rio Grande a tua figura.
Temos grandes heróis. Estamos festejando o aniversário da legalidade. Festas, banquetes, estátuas ao Brizola. Merecido. Festas, homenagens a muitos que participaram. Merecido. Mas você no silêncio, no anonimato. Pois que se diga aqui, neste momento, eu não vejo no Rio Grande do Sul ninguém que tenha mais o respeito, a admiração pelo que fez, do que tu és. Não conheço ninguém que tem a grandeza, a pureza de sentimento, a dedicação de corpo e alma acima da família, acima de tudo pela tua causa, pela tua luta, noite dia, percorrendo, andando por toda a América do que você.
Estou muito feliz por poder te dizer, daqui da tribuna do Senado, em nome do Brasil, mas em nome do Rio Grande, isso o que você merece. Você é o símbolo da pureza, da grandeza, da beleza, da humildade, da singeleza, do caráter, da luta da resistência. É um orgulho ser
Da singeleza, do caráter, da luta, da resistência.
É um orgulho ser teu amigo, é orgulho ser teu conterrâneo, é uma felicidade vê-lo ainda firme e forte. Se Deus quiser continuando nessa caminhada, que é fazer do Brasil, que está a caminho, diga-se de passagem, a grande Pátria de respeito e amor entre todos os brasileiros.
Muito obrigado.
0 comentários:
Postar um comentário